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Inflação dos diplomas – O paradoxo que erode o crescimento econômico e aumenta a desigualdade

É incontroversa a severidade da crise típica de nossa era moderna que atinge duramente a classe média e tensiona nossa estrutura social, causando grande frustração em nossos candidatos no mercado de trabalho. Se conhecemos os danos causados pela inflação, fenômeno monetário que se caracteriza quando um aumento autônomo da massa monetária encontra um estoque limitado de produtos, tendo como maior efeito perverso a redução do poder de compra, é novo e desafiador sua existência no setor educacional e seu impacto no mercado de trabalho, criando o que denominamos de inflação dos diplomas.

O fato é que observamos hoje um aumento no nível de formação de um candidato a emprego que acompanha a proporção crescente da população que faz curso superior, ou seja, temos cada vez mais um número maior de estudantes e profissionais buscando qualificação superior, passando mais tempo estudando e aprimorando sua formação.

Esse ciclo deveria ser considerado virtuoso, pois uma qualificação maior e mais dilapidada tenderia a resultar em cidadãos ou profissionais mais produtivos e capazes, com um efeito econômico benéfico para o país e cidadãos, afinal, uma superqualificação promete empregos de elite, com remunerações e criação de riqueza.

A armadilha nesse legítimo e evidente raciocínio se forma no fenômeno que observamos nos últimos 20 anos e que, ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento e o processo de inovação, cria condições mais agudas de desigualdade, o desemprego tecnológico. Para que o benefício de uma melhora na formação e qualificação de mercado tenha resultado econômico efetivo, é crítico que haja uma demanda por trabalhadores qualificados ou um ambiente que propicie a inovação e empreendedorismo, com fontes de financiamento acessíveis e sustentáveis. Entretanto, o avanço da tecnologia tem servido como substituto mais eficaz e eficiente da ação humana.

No caso brasileiro, não há dúvidas que não encontramos estímulos à inovação e empreendedorismo em nossa insular estrutura de mercado, cabendo, então, de forma quase exclusiva ao mercado de trabalho, absorver os novos entrantes ou mais qualificados em busca de determinadas vagas.

O desafio reside que, em plena época de exponencial e contínuo avanço tecnológico, mais e mais profissões estão sendo substituídas integralmente ou, por hora, parcialmente, por tecnologia, que, por sua vez, não demanda de grandes especialistas para operá-las em sua plenitude. Esse fenômeno de substituição humana por tecnologia vem ao encontro do grande avanço do “big data”, algoritmos, robótica e outros derivados do grande investimento em pesquisas feitas nos últimos 20 anos. A imediata consequência que observamos desse processo de substituição, com aumento da produtividade econômica, é que se antes precisava-se de um bom número de empregados com alta qualificação e bem remunerados e de um grande número de qualificação mediana em um determinado setor, dado o avanço tecnológico,  precisa-se hoje de poucos altamente qualificados e alguns não tão qualificados para executar certos protocolos e operar adequadamente a tecnologia que executa a maioria dos processos de forma autônoma, com enormes ganhos de produtividade. Assim, a cada ano, mais e mais empregos vão perdendo seu valor no tempo, sendo substituídos por ferramentas tecnológicas mais eficientes, em uma velocidade de destruição e substituição de empregos alarmante. Por exemplo, se olharmos as consequências da revolução industrial , demoramos 200 anos para a substituição completa da manufatura, fenômeno esse que levou apenas 20 anos no caso do crescimento tecnológico. É, sem dúvida, um movimento com grande impacto social.

O filósofo Anders Günther já nos alertava, na década de 80, sobre a revolução do perfil humano, em função da revolução tecnológica. De “homo faber” a “homo creatur”, para “homo materia” e agora “homo superflu”. Participamos, de forma assimétrica, dos extremos da cadeia, produzimos novas tecnologias que fabricam produtos para nova produção, de forma sequencial, com o foco de consumo. O papel de poucos da população mundial é criar esses meios; e de muitos, adquirir e comprar o resultado da cadeia de produção. Somos cada vez mais supérfluos na estrutura de produção tecnológica. Não por menos, 1% dos mais ricos controla 30% da renda e 46% de toda a riqueza, ou 1.426 pessoas detêm 2% da riqueza global (maior do que o dobro da riqueza da África).

Esse processo, liderado pela revolução tecnológica, põe em questionamento a premissa que mais educação levaria a uma maior igualdade de oportunidade e a empregos de melhor qualidade, desaguando em uma maior performance econômica, gerando, assim, uma ilusão da busca de qualificação, tendo por consequência retornos maiores do mercado de trabalho. O que observamos é um ciclo inflacionário que leva a mais diplomas, gerando maior concorrência por empregos e resultando em um aumento da exigência de empregadores para uma mesma remuneração.

Em face dessa concorrência e da frustração causada por essa espiral inflacionária, a resposta dos estudantes no que diz respeito ao valor declinante do poder de compra de seus diplomas é um imediato aumento da busca por qualificação, ou seja, mais diplomas. O processo se transforma em um ciclo vicioso, pois quanto maior o número de estudantes qualificados, menor é o valor percebido de sua qualificação e sua reação é aumentar seu tempo de estudo, dada a estrutura atual do mercado de trabalho.

Naturalmente, a continuidade desse ciclo tem não só impactos sociais, mas também econômicos, pois estende o tempo de jovens na casa dos pais, posterga sua entrada no mercado de trabalho e quando o faz, oferece apenas empregos cuja remuneração é inferior à capacitação apresentada, não obstante, estudantes são direta ou indiretamente subsidiados pelo Estado, e o ciclo existente apenas contribui para absorver o excedente de mão de obra, diminuindo o número de indivíduos da população ativa. É um paradoxo da era moderna, em que maior qualificação tem gerado empregos sub-remunerados. Nos Estados Unidos, já se discute que o custo ou investimento do ensino superior e da qualificação não se justifica, dada a remuneração oferecida pelo mercado de trabalho e o custo da dívida tomada para o financiamento da qualificação.

O enfrentamento desse paradoxo não é trivial. Há, de fato, como nos alertou Günther, uma revolução estrutural de nossa função social, a qual ainda não foi bem percebida por governos e sociedade, muito embora estejamos vivendo seus efeitos de forma cada vez mais aguda.

A saída talvez venha por uma abordagem conjunta sociológica e econômica de nossa sociedade.  Pelo campo sociológico, entender que nossas decisões não são unilineares, que temos, a cada instante, como lembra Bourdieu, um espaço dos possíveis, ou seja, que as coisas não são porque só poderiam ser assim, que temos a crença ou a protocrença (uma crença que não se conhece como tal) dessa irreversibilidade da decisão histórica, enquanto, de fato, elas são apenas parte de uma construção política, onde decidimos, de forma não inexorável, seguir por determinado caminho. Encontrar soluções para aliviar ou resolver esse paradoxo é uma decisão de Estado e sociedade, mas não podemos nos fixar em antigas soluções ou métodos para resolver novos problemas.

Do ponto de vista econômico, alterar a já exaurida fórmula do mercado de trabalho, estimulando o empreendedorismo, facilitando meios de financiamento de novas ideias que possam prosperar em um ambiente de melhor qualificação, efetuando as reformas trabalhistas, me parece ser o caminho a seguir. É um paradoxo novo, grave e que deve ser enfrentado de frente e olhando para frente.

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