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Odebrecht e a delação que pode mudar o país

Fernando Henrique Cardoso (FHC), ex-ministro e Presidente do país nos anos 90, circulava em determinado evento político, quando encontrou Sebastião Camargo, fundador de uma das maiores empreiteiras do país, Camargo Correa. Surpreso com a presença de Sebastião, exclamou: “ Sebastião, você por aqui !”, o qual prontamente respondeu: “ Presidente, nós estamos sempre por aqui, vocês que vêm e vão”.

A história acima ilustra o tamanho do poder e perenidade que o grupo de empreiteiras, hoje centrais na operação Lava-Jato, tiveram no país desde 1964. Aliás, para quem quiser entender a formação e crescimento desses grupos no país, leiam o livro “Estranhas Catedrais”, do historiador Pedro Henrique Campos, uma importante referência para a compreensão da formação do Estado Brasileiro.

Por isso, a delação da empreiteira Odebrecht com negócios não somente no Brasil, mas também nos Estados Unidos e em outros países africanos, tem um potencial absolutamente avassalador, quase nuclear, que pode, com a energia e franqueza necessárias, impulsionar o Brasil a efetuar a série de reformas políticas, eleitorais e jurídicas, que são postergadas continuamente há décadas.

Apenas para compreensão da extensão do caso, fala-se que a deleção atinja entre 100 e 200 políticos em nível federal, isto é, Congresso e Senado, tanto de governo quanto de oposição, alcançando ainda três presidenciáveis para 2018, além de governadores, prefeitos e metade do STJ (Supremo Tribunal de Justiça), penetrando, assim, pela primeira vez no Judiciário, expondo em sua completude a endêmica corrupção instalada nos alicerces da estrutura dos poderes.

Segundo o procurador Rodrigo Janot, a delação que culminará em uma série de atividades policiais e judiciais em março representa o início do fim do mundo.

A hipérbole parece clara, mas é localmente apropriada. A divulgação em detalhes do funcionamento da relação entre grandes empresas, governo, Congresso e Senado não passará incólume a uma nação que amarga uma grave crise econômica com alto desemprego (12 milhões de desempregados), salários atrasados, Estados quebrados e que enfrenta ausência de qualidade em serviços como educação, segurança e saúde, somado ao profundo descrédito e desesperança com o sistema político.

O aumento da refração a políticos e à própria política, a indignação contra as empresas e contra o sistema em si são efeitos mais que esperados para o ano que vem. O que realmente permanece uma incógnita é o tamanho dessa frustração e indignação, o grau da resposta ao se trazer luz aos porões do país. Congressistas já têm uma vida complicada atualmente, restringindo sua aparição em locais públicos, onde são, por vez e outra, agredidos verbalmente e até fisicamente. Soma-se ao conjunto de incógnitas quais lideranças surgirão como alternativa para ocupar o deserto de representatividade que a população sente contra o sistema.

O país terá de enfrentar sua história de frente, mas também criar caminhos para reordená-la. Se todo ato de criação precede o da destruição, não devemos esquecer da necessidade da reconstrução. Parece-me mais que evidente que as atuais lideranças, as quais cismam em perpetuar no poder, não encontram mais sustentabilidade social e que não repousa na sociedade brasileira o conformismo moral, em relação à própria cultura permissiva com a corrupção.

Contudo, o grau dessa insatisfação é a grande incerteza que nos ronda. Mesmo aos grandes conhecedores da estrutura política brasileira e da relação permissiva entre o setor privado e público, causou absoluto espanto que a empresa Odebrecht tivesse uma área estruturada e organizada, com sistemas próprios, desenhados e especificados, com claros graus de alçada para administrar o pagamento de propina a políticos no país. A revelação de que o grupo teria ainda um banco internacional, cujo objetivo primário era ajudar a operacionalizar os pagamentos no exterior e ligação com bancos suíços, remete a uma organização sofisticada e bem administrada para a gestão desse ilícito. Uma atuação exagerada.

Não há precedentes na história do Brasil que possa prever como e de que forma o país reagirá a se olhar de maneira tão despida e crua.

Nesse diapasão, a falta de liderança política do governo Temer tem sido uma flagrante decepção. Seu núcleo político tem sido atacado por escândalos e tem se mostrado fracionado e desunido com lutas internas pelo poder. Todos buscam o protagonismo para atuar como o líder que a nação precisa. No campo econômico, apesar do esforço em aprovar os pacotes necessários para uma mudança estrutural no país, medidas proativas complementares não estão sendo efetivadas pelo Ministro da Fazenda, Henrique Meireles, atuante não só na questão econômica, mas também construindo e pavimentando suas ambições políticas, o que, nesse momento, aumenta o grau de incerteza e de debate político de bastidores, ou seja, apenas casualmente, a economia não está reagindo.

O próprio Estado encontra-se ainda repleto de funcionários em lugares estratégicos, nomeados pelo então governo PT, esperando a resolução dos conflitos e disputas do primeiro escalão, para que possam ser substituídos, o que favorece a confusão e lentidão burocrática.

Esperava-se uma melhora rápida da economia através da dinâmica de um Estado menor, com mudanças estruturais realizadas, compensadas pela presença de uma maior poupança privada.

O erro nessa análise advém do próprio cenário mundial. Países desenvolvidos, como EUA, Inglaterra, França e até China revisitam suas políticas e passam também por uma fase de autoaprimoramento, olhando muito mais para seus problemas e disputas internas, do que ansiosos por oportunidade externas. Resultado: o investimento externo não veio.

O cenário para 2017/2018, que apresentava cores de esperança, volta a sinalizar o céu cinzento e pesado, próprio das conhecidas tempestades, a ausência de um governo ativo gera mais instabilidade.

Prepare-se para o fim do mundo, construa a arca, mas deixe os animais políticos de fora. A tendência é a extinção.

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